Poema – Da mais alta janela

    De todas as artes que trabalham com a palavra, a poesia é a que mais toca no fundo do ser humano. Talvez porque uma poesia não é como um texto que diz as coisas concreta e explicitamente. Nos poemas podemos “viajar”, encontrar vários significados, deixar nossas emoções tomem o comando.
    Neste poema, você vai perceber como o autor encarava seu ofício de tecer poesias.
Da mais alta janela

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.
E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.
Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.
Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?
Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.
Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.
Passo e fico, como o Universo.
Fernando Pessoa. O guardador de rebanhos XLVIII. In Fernando Pessoa. Obra poética; poemas completos de Alberto Caeiro. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1977. p. 227.
     Fernando Pessoa, nascido em Portugal em 1888 e morreu em 1935 aos 47 anos devido a crise no fígado causada pelo uso abusivo de álcool, foi um dos poetas portugueses mais complexos: além de escrever poemas com seu próprio nome, criou mais três heterônimos – nomes com os quais assinava suas poesias: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. o mais interessante é que cada um deles fazia um tipo de poesia completamente diferente da dos outros – como se fossem realmente poetas distintos.
     Poucos souberam usar de forma tão bonita e genial a língua portuguesa como ele.
REPENSANDO O POEMA
1) Explique por que o poeta despede-se de seus versos.
2) O que obriga o poeta a mostrar seus versos?
3) “E não estou alegre nem triste.”
     “… e sinto-me quase alegre,”
     “Quase alegre como quem se cansa de estar triste.”
a) Como você descreveria o estado interior do poeta?
b) Que sentimento seria esse que oscila entre a alegria e a tristeza?
c) Que razões ele tem para estar quase alegre?
4) Essa “quase alegria” está misturada à tristeza da partida dos versos. Na despedida, o poeta diz adeus com um lenço brnco e se coloca na mais alta janela de sua casa. O que ele pretende com a criação dessa imagem?
5) Flor, rio e árvore são citados como sua característica mais natural. Essa mesma naturalidade poderia ser transferida a quê?
Por que o poeta usa essas imagens?
6) Quais as características mais fortes do poeta e de seus versos?
7) O poeta está preocupado com o destino de seus versos. Na sua opinião, ele tem razão?
8) Como o poeta pode se tornar imortal?
9) Estabeleça uma comparação entre o poema Da mais alta janela e esta estrofe, também de autoria de Alberto Caeiro, hetrônimo de Fernando Pessoa.
“Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.”
10) Alberto Caeiro escreveu os seguintes versos:
“penso com os olhos e com os ouvidos
e com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.”
PAUSA PARA UM 
     O ar, o vento e a natureza estão presentes nos poemas abaixo. Veja como dois grandes poetas trabalham com temas parecidos.
Ar livre
A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.
Leva o arco-íris em cada fio do cabelo.
Em sua pele, madrepérolas hesitantes
pintam leves alvoradas de neblina.
Evaporam-se-lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.
E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo,
em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.
Cecília Meireles. Ar livre. Antologia, Rio de Janeiro, Agir, 1974. p.34.

 

 

 

 

 

 

 

 

Observe:
• A autora utiliza elementos da natureza, misturados à personagem para caracterizá-la;
• Ela busca uma total integração da personagem à paisagem (último verso).
Veja como Olavo Bilac, poeta do século 19 trata do mesmo assunto.
Sai a passeio
Sai a passeio, mal o dia nasce,
Bela, nas simples roupas vaporosas;
E mostra às rosas do jardim as rosas
Frescas e puras que possui na face.

Passa. E todo o jardim, por que ela passe,
Atavia-se. Há falas misteriosas
Pelas moitas, saudando-a respeitosas…
É como se uma sílfide passasse!

E a luz cerca-a, beijando-a. O vento é um choro
Curvam-se as flores trêmulas … O bando
Das aves todas vem saudá-la em coro …

E ela vai, dando ao sol o rosto brendo.
Às aves dando o olhar, ao vento o louro
Cabelo, e às flores os sorrisos dando…

Olavo Bilac. Via Láctea. poesias de Olavo Bilac. São Paulo, Livraria Francisco Alves, 1964. p.59.
Vocabulário
Sífide – figura mitológica feminina que flutua no ar.
Atavia-se – enfeita-se.
Perceba que
• assim como Cecília Meireles, o poeta integra a personagem que sai a passeio com os elementos da natureza.
1) De qual poema você mais gostou? Por quê?
2) Por que você acha que existem os poetas?
3) Para você, a poesia diz algo de especial? Justifique sua resposta.
4) Em sua opinião, quais as diferenças entre um texto em prosa e um texto em versos?
Respostas
1) Porque agora pertencerão à humanidade, pois serão divulgados.
2) Mostrar seus versos é um ato praticamente relativo ao ato de escrevê-los. Ele os escreve para que sejam lidos.
3)
a) Ao mesmo tempo que está um pouco triste porque vai se separar de seus versos, sente-se um pouco alegre porque serão lidos e apreciados.
b) Uma satisfação e insatisfação simultâneas, um sentimento indefinível.
c) Ele sabe que, mesmo caindo em domínio público, os versos sempre lhe pertencerão, pois ele é o seu criados.
4) Dar um pouco de dramaticidade à despedida.
5) Ao fato de seus versos serem escritos para serem mostrados aos outros. Para intensificar esse fato.
6) Uma mistura de transitoriedade e eternidade.
7) Resposta pessoal.
Sugestão: Comentar que muitos leitores provavelmente o admirarão, outros o criticarão e muitos sequer o entenderão.
8) Os próprios poemas publicados, cultuados e estudados através dos tempos poderão dar-lhe  a imortalidade.
9) Em ambos aparecem imagens de árvores e flores e coloca a ideia de que só há sentido em escrever  belos versos caso sejam publicados.
10) Resposta pessoal.
Professor (a): Fazer o aluno (a) perceber que seu conhecimento da realidade é mediado pelos sentidos.

 

 

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