Texto – O operário em construção

As críticas e as denúncias de problemas sociais podem ser feitas através de versos de um poema. Também, nem só de versos de um poema contêm poesia. “Há poesia sem poema, paisagens, pessoas e fatos podem ser poéticos: são poesias sem poemas…” dizia o escritor mexicano Octavio Paz. As letra de música também podem ser muito poéticas.
Análise do poema 

O Operário em construção é um poema “visceral” como diria certa vez Vinicius, um poema que nascera de sua revolta. O interessante do poema é que ali está uma certa percepção dos trabalhadores e de sua luta que diz muito sobre a formação do movimento operário no Brasil e de seus limites.
A epígrafe do poema este pequeno fragmento, um trecho do Evangelho Segundo Lucas, é parafraseado pelo autor de maneira a compor a estrutura do poema e ajudar a orientar sua interpretação. O fragmento:
“E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8”.
Assim como o Diabo, o burguês acredita dispor de um poder que, na realidade, é do proletário (Deus). Verifica-se, então, a falsa ideia de que a burguesia deve possui o poder de deter a propriedade privada. Esta mesma, fruto do trabalho operário, mas que, ironicamente, não lhe pertence.
Professor(a): Explicar que epígrafe é uma sentença colocada no início de um capítulo de um livro, de um discurso, de uma composição poética, etc. que serve de tema a um assunto.
Quantas coisas são construídas para alicerçar nossas estruturas? As casas, os templos, as escolas, os cinemas… No mundo são apenas objetos inominados que nos abrigam, valorizados conforme as leis de mercado, mas… O homem se perde no anonimato das construções e vive sobre as construções que ajudou a levantar.
O poema “Operário em construção”, de Vinicius de Moraes, inicia com o papel do operário na construção das coisas e o desconhecimento da importância da sua profissão. Narra, em versos, a alienação verificada na multidão que empilha os tijolos com suor e cimento.
“Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.”
De repente, o operário constatou que ele, um humilde operário, era responsável pelos objetos que estavam em sua mesa e, “tomado de uma súbita emoção”, percebe que era ele quem construía tudo o que existia: “casa, cidade, nação!”.  Compreende a força das rudes mãos e a grandeza de ser um operário em construção:
“Foi dentro desta compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário…”
O operário se constituiu em uma nova dimensão. A percepção da própria importância na sociedade que construía, a compreensão do significado do exercício de sua profissão… Tudo disposto em poesia, a consciência adquirida, o conhecimento compartilhado como outros operários e a possibilidade de dizer não:
“O que o operário dizia
Outro operário escutava
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia “sim”
Começou a dizer “não”…”
O poema nos contagia. Sentimos libertar a percepção quando o operário começa a notar as coisas, as diferenças de sua vida com a do patrão, comparando pequenos detalhes. Sua consciência política e social amadurece e ele se faz forte em dizer não, apesar das contrariedades e das delações de alguns companheiros. O patrão, sem dar importância, solicita aos delatores que o convençam do contrário. Começam as agressões: cospem em seu rosto, quebram seu braço e ainda assim o operário diz não.
“Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.”
O patrão, verificando que toda a violência sofrida não convenceria o operário, tenta dobrá-lo com a proposta de poder, tempo de lazer e de mulheres, com a condição de que o mesmo abandone o motivo que lhe faz dizer não.
O operário observa a ampla região em volta da construção e vê o que seu patrão não consegue ver: o operário vê casas e tantos objetos, enquanto seu patrão está limitado a visão do lucro. O operário percebe que em tudo há a marca de sua mão e diz “não” à oferta do patrão: “Não pode me dar o que é meu”.
O homem, com a amplitude da percepção que adquiriu, sente a enorme solidão dos que compreendem além das aparências, a responsabilidade pela vida dos que padeceram e dos que viverão com esperanças. Constrói-se dentro de um novo perfil de homem, engajado no mundo e consciente de sua participação na história.
“E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um pobre e esquecido
Razão que fizera
Em operário construído
O operário em construção.”
O poeta encerra sua grande edificação poética. Vivemos a construção do operário, de sua consciência e da coragem para negar à ordem, quando esta não representa o seu trabalho. O poema inicia com versos cotidianos para encerrar na razão solitária e na perspectiva que constrói um trabalhador e que pode contagiar os demais.
Viajamos nos versos e aportamos, emocionados, em nosso papel no mundo. Somos todos operários em construção que devemos construir o dia-a-dia com tijolos significativos e transformar a realidade num abrigo seguro para os ideais.
Pensamos nas conquistas de nossas construções individuais, as carreiras que exercemos, nossa importância na sociedade, o orgulho de estar no mundo de forma significativa, e verificamos que somos também a edificação coletiva, quando podemos visualizar, do alto da construção, o mundo em desenvolvimento.
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Leia o poema abaixo.
“E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8”.
O operário em construção
Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia…
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– “Convençam-no” do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
Moraes, Vinicius de. In: Antologia poética. 9. ed. Rio de janeiro, Sabiá, 1971. p. 250-3.
VAMOS ENTENDER O TEXTO
1) A melhor explicação para o título do poema, de acordo com o tema é a que afirma que o operário
a) (     ) constrói casas com seu trabalho digno e sempre se mostrou politizado.
b) (     )  é um homem digno que se faz sozinho, por isso se torna explorado.
c) (     ) constrói casas e se constrói como um ser conscientizado.
d) (     ) não passa de um escravo de seu trabalho e de seu patrão.
2) Há duplo sentido no título? Justifique sua resposta de acordo com a questão 1.
3) Qual é o tema do texto? Justifique, com apoio no texto de Vinicius de Moraes, porque a simples escolha do tema não define o gênero textual.
4) Em relação aos versos “… a casa que ele fazia / Sendo a sua liberdade / Era a sua escravidão.” , todas as afirmações estão corretas, exceto
a) (     ) Há nos versos uma forte antítese, revelando forças contrárias na vida de um operário.
b) (    ) Com estes versos, o poeta enfatiza a ideia de que o operário tem toda a liberdade que deseja, mas torna-se escravo do que ganha com seu trabalho.
c) (     ) Nos versos está presente a ideia de que o operário possui uma certa liberdade, mas também é escravo de seu escasso salário.
d) (    ) Qualquer trabalhador pode ser livre ou escravo de seu trabalho.
5) “De fato, como podia / Um operário em construção / Compreender por que um tijolo / Valia mais do que um pão?”
Os versos acima concordam com todas as ideias abaixo, exceto
a) (     ) O operário, porque ainda não se construíra, não conseguia entender as injustiças sociais.
b) (     ) O operário por ser um homem humilde, pobre e explorado em seu trabalho, valorizava mais o pão, seu sustento básico.
c) (     ) O operário não conseguia discenir entre o valor do material básico do seu trabalho – o tijolo – e o seu alimento básico diário – o pão.
d) (     ) O operário ainda não possuía discernimento suficiente para compreender o valor do material básico de um construção – o pão.
6) “Prisão de que sofreria / Não fosse eventualmente / Um operário em construção.” Com estes versos, que ideia nos passa o poeta?
7) No texto, o operário se conscientiza de quê? E por que ele tomou esse conhecimento?
8) Explique o verso “Começou a dizer não”.
9) O que a comparação reiterada entre operário e patrão evidencia no final do poema?
10) Por que o poeta diz “Ah, homens de pensamento / Não sabereis nunca o quanto / Aquele humilde operário / Soube naquele momento!”?

 

Respostas
1) c
2) Sim, pois o poeta considera que enquanto o operário constrói casas, ele se constrói, isto é, ele está em construção no seu trabalho e está em processo de construção enquanto ser humano capaz de outras realizações.
3) O tema é injustiça social que sofre o trabalhador, num mundo capitalista. Mas muitos outros gêneros poderiam abordar o mesmo tema.
4) b
5) d
6) Que o operário além de construir tudo, estabelecia até o próprio castigo caso se desajustasse com seu mundo.
7) Ele se conscientizou de que era útil à sociedade, de que tinha valor e precisava valer seus direitos para ser reconhecido. Porque ele constatou que tudo era construído por ele.
8) O operário descobriu-se como sujeito de suas ações. Já não era mais um objeto, um ser passivo que a tudo dizia sim. Passou a valorizar-se mais, aprendendo a dizer também não, quando necessário.
9) Evidencia a descoberta maior do operário que passou a observar como sua vida era tão diferente da do patrão, que o explorava em todos os sentidos.
10) Resposta pessoal.
Professor(a): Espera-se que o aluno aponte a emoção de o operário descobrir-se como sujeito de sua história, de se ver grande a partir das próprias obras. os presunçosos “homens de pensamento” jamais teriam o prazer dessa experiência.

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